terça-feira, 17 de abril de 2007

Porto Alegre é que nem Varginha*

Comecei o ano com o pé direito: Tomei minhas primeiras gotas de Fluoxetina, assim que acordei, pelas 15h de hoje, dia 1 de janeiro de 2006. Um antidepressivo inibidor da recaptação da serotonina sempre pode vir a calhar, não é mesmo? Nunca tinha tomado. Não tem ninguém na casa, e a Lopo Gonçalves inteira parece prestes a pegar fogo. Pensamentos confusos. As últimas semanas do ano são as piores, ainda mais em Porto Alegre. A cidade fica que nem Varginha: Não tem nada, só ET. No meu caso, deve haver alguma simbologia nisso: Sozinho, melancólico e de ressaca. Dor de cabeça. Mas dissecar a alma é arrancar obturações. Não existe beleza amparada à tristeza. Gosto de idéias curtas, frases de efeito. “Cagar é legal”. Se rimar, melhor ainda. “Ué, mas tu não ia pra Imbé?”, pergunta alguém. Quero comprar um tapete. Trocar o carpete. Tomar um sorvete. Tocar um trompete. Coçar o cacete. Cortar o topete. Um casamento em Veneza.

Segundo Borges, ele cometeu o pior dos pecados que um homem pode cometer: não foi feliz. Mas isso não me importa nada, aliás, nem a ninguém que não o próprio Borges. Ora, Buenos Aires sempre me pareceu um lugar muito mais divertido e interessante de se viver do que Porto Alegre, então ele que se conforme e pare de reclamar, deixa isso pra mim. Até porque o sonho do portoalegrense sempre foi ser argentino, e do sul-riograndense, ser gaúcho. Mesmo assim, não posso me queixar se cresci torcendo pro Grêmio pensando que era o Boca Juniors, se ao pedir Cortázar me entregaram Fogaça. A mim agora bastaria um belo milk shake do Rib's, o falecido Rib's, um hot dog da República e um lap top ligado enquanto assisto a TV Guaíba submergindo. Em inglês tudo fica melhor. 

Não estou longe demais das capitais, como diria o chato do Humberto, estou é cercado por expressões e costumes que vêm de longe, como o muro da Mauá e a merda boiando no Guaíba, pra parecer mais bairrista. A solidão é um mundo imenso de infeliz cidades. Um charuto em Havana ou um vinho na Serra não poderão desajeitar do meu peito uma angústia que é cômoda, enraizada nos fios de cabelos que eu tenho. E com o medo, me está completo um desejo antigo de não estar deserto. Não é que eu odeie os seres humanos, veja bem, mas só os sambistas da velha guarda carioca me parecem legais, com seus ternos de linho branco e chapéu panamá amassado. Sem falar no Renato Portaluppi e o Ildo da Lancheria, é claro. Viva o Rio Grande do Sul, e viva o Rei Pelé (não preciso explicar ironias, certo?).

O ano começou e eu não guardei as lentilhas, mas um mendigo me pediu champagne na rua, e eu dei, um belo bocado inclusive, porque lembrei do comercial do Zaffari e, bem, chega de falar dessa cidade ingrata. Aí vêm minhas resoluções para 2006:

DE JANEIRO A MARÇO: Vou encher a pança de pastelina e ficar mais gordo que o Marlon Brando na fase Apocalypse Now, e mais burro que o Maguila. Vou ler tantos livros que meu cérebro não conseguirá mais captar a diferença entre Nelson Rodrigues, Escola de Frankfurt e a Tati Quebra-Barraco (gênios).
DE ABRIL A JUNHO: Vou enchera pança de livros e ficar mais gênio que a Tati Quebra-Barraco na fase Escola de Frankfurt, e mais gordo que o Maguila (burro). Vou ler tanto Nelson Rodrigues que o Marlon Brando não conseguirá mais captar a diferença entre Apocalypse Now, meu cérebro e a pastelina.
DE JULHO A SETEMBRO: Vou encher o Maguila de pastelina e livros e ficar mais Apocalypse Now que o Marlon Brando, meu cérebro e Nelson Rodrigues na fase pança (gordo), e mais burro que o gênio. Vou ler tanto a Escola de Frankfurt que a diferença não conseguirá mais captar a Tati Quebra-Barraco.
DE OUTUBRO A DEZEMBRO: Vou encher meu cérebro de Tati Quebra-Barraco e ficar mais burro que o Nelson Rodrigues na fase pastelina, e mais Escola de Frankfurt que o gênio (Maguila). Vou captar tanto a diferença entre Apocalypse Now e a pança que o Marlon Brando mais gordo não conseguirá ler livros.

Já decidi que, a partir desse ano, não vou decidir mais nada. Vou amar Porto Alegre como quem traça a empregada: Não tem tu vai tu mesmo. Não tem ninguém na casa, e a Lopo Gonçalves inteira parece prestes a pegar fogo. Felizes os felizes.



*Texto lido por mim no Sarau Elétrico do Bar Ocidente, dia 27/03/2007, com o tema "Porto Alegre"

2 comentários:

Inara disse...

SENSACIONAL ESSE BRUNO!!

Sheyla disse...

É, eu tb desisti das resoluções sem soluções mágicas de fim de ano, por causa, inclusive, dos comerciais do Záffari. E sim, tb acho o Humberto um chato com voz de pato.
E por falar na tua rua, esses tempos andei nela, rua estranha, fiquei na esquina um tempão, tinha esquecido do número da casa do cara do teatro...
Escreva mais. Adorei.