terça-feira, 21 de outubro de 2008

De quando eu pensava que o Collor morava com sua "Dinda" rica


Se não me falha a memória, nem a matemática, esse pequeno regalo encontrado entre minhas bugigangas à serviço de futuros netos é datado do ano de 1992, e chega à sua publicação agora como sendo o primeiro "poema" que escrevi na vida, aos 9 anos de idade. Mais do que um contributo pessoal, é a importância do período em que vivíamos que lhe traz significação hoje, 16 anos e algumas evoluções depois. Nosso presidente era o então em fase de purgatório público Fernando Collor, e eu, aluno da 4° série do Mãe Admirável, me candidatei como um dos que iria "falar no microfone" diante do colégio todo numa apresentação. Função escolhida: Criar uma poesia.

Involuntariamente, minha satisfação ao re-encontrar a infância é totalmente egoísta, pois, ter aparecido em aula dias depois com esse tipo de reflexão diante dos outros que tanto me pareciam inatingíveis, como a professora e os alunos das turmas mais adiantadas, e ver essas mesmas pessoas me ovacionarem ao final da Parkinsoniana leitura, mostra uma época alegre de uma criança insegura e tímida que reagiu impulsivamente, felizmente. Eu era um garoto muito bacana e nem fazia idéia.
Eis o poeminha, intitulado "Brasil":

Brasil, Pátria idolatrada
Muito amada pelo teu povo
Vive um dos piores momentos
Onde todos tem sofrimento

Prometemos que vamos mudar
E que este país vai melhorar
Um povo sofrido
Que luta até morrer pra te honrar

Se o Presidente quiser o melhor pra ti
Terá que se demitir
Se o povo ajudar, o Brasil vai andar
Andar para frente
Renuncia, Presidente!

Fernando Collor renunciaria meses depois, após ter seu processo de impeachment aberto em votação televisionada para todo o país.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Debate televisivo entre políticos e amigos em 05/05/2008

Alceu Collares:
- Mas eu não sou capaz de matar sequer uma mosca, quanto mais um ser humano!
Pedro Américo Leal:
- O senhor está dizendo que eu seria capaz, então?
Bibo Nunes:
- De repente, na ditadura militar...

terça-feira, 22 de abril de 2008

Wendy ou Walter Carlos?

Ele, nascido, Walter, pioneiro, da, música, eltrônica e, sintetiza, dores. Nos anos, 60 conheceu Robert Moog do Moog sim.
Switched-On Bach é, o primeiro álbum dele de 68 ainda Walter Carlos ele.
Bach + sintetizador = patinação e, sucesso Grammy platina
Acordes: Nem pensar: só uma nota! Por vez! Várias pistas! MOOG, Vianna
1972: É Wendy! Um ano depois Carlos abre o Ziggy Stardust and Spiders From Hell da colega inglesa com sua versão da colega austríaca a sinfonia nona aquela.
Gravou, a trilha, do, Laranja Mec,,;,.,ânica, Iluminado, mas eu acho que essas músicas que ela/ele faz dão no saco (sem trocadilho cruel com esse sujeito que é realmente um gênio) e só têm valor pela informação histórico-bizarra e porque tem quem goste mas essa é só minha opinião caí

domingo, 30 de dezembro de 2007

Casa do Artista Riograndense pede ajuda*

Sem receber apoio governamental, o Lar de idosos sobrevive de doações


Fundada em Setembro de 1952 para abrigar artistas gaúchos desamparados, a Casa do Artista Riograndense tem enfrentado inúmeras adversidades para se manter ativa ao longo desses anos todos. Não existe nenhum tipo de incentivo legal vindo de entidades governamentais, e o único meio de subsidiar todas as despesas que o local exige é através de doações da comunidade a algumas ações da diretoria, como realização de shows, saraus, entre outras coisas. Apesar de não cobrar nenhum tipo de auxílio financeiro de seus moradores, a entidade tem recebido contribuições por parte dos mesmos, que atualmente têm arcado com o pagamento da luz e da água.


Situada no bairro Glória, em Porto Alegre, a Casa do Artista serve de lar para 8 pessoas de idade já avançada, entre elas músicos, atores e pessoas ligadas ao rádio. Alguns ainda estão na ativa, como é o caso do ator e músico Zé da Terreira. Contando até hoje com um certo prestígio entre a classe artística, Zé vive em constante movimentação criativa, ministrando oficinas para os jovens, participando de realizações teatrais, performances e shows musicais. Teve um cd lançado no ano de 2002 através do Fumproarte, intitulado “Quem tem boca é pra cantar”. No seu currículo ainda é possível descobrir diversas atividades marcantes, como sua participação na peça “Hair”, que foi montada em 1969 no Rio de Janeiro e tinha no elenco Sônia Braga, Ney Latorraca e outros atores de renome nacional. Morando da Casa desde o ano de 2001, Zé mostra-se contente com o funcionamento da rotina dentro da Casa: “Aqui dentro não há controle, não tem alguém que mande ou interfira na individualidade da pessoa. Cada um prepara sua própria refeição e se organiza da maneira que preferir. Há liberdade total”. Mesmo assim, acredita que é possível gerar uma infra-estrutura mais favorável aos moradores. “A gente tem que ir atrás de recursos, cada melhoria que conseguirmos trazer aqui pra dentro é uma vitória enorme”, enfatiza Zé, enquanto se prepara para realizar mais uma atividade fora da Casa.


De acordo com o diretor da entidade, Darcílio Messias, entre as principais dificuldades enfrentadas para a manutenção da Casa do Artista está o fato de não haver uma renda regular, uma vez que as doações e verbas conseguidas são escassas e nem sempre conseguem suprir todas as dificuldades financeiras. “As últimas direções que nos sucederam negligenciaram na suas relações com os poderes públicos municipal e estadual e a Casa passou por momentos de dificuldades extremas”, afirma Darcílio. Segundo ele ainda, a ajuda de órgãos governamentais traria enormes benefícios à sociedade, visto que o local é um bem de todos. “Essa relação com os governantes vem sendo retomada e, embora ainda não tenha resultado numa ação mais concreta por parte das autoridades, algumas tratativas já começam a ser esboçadas. Mas, por enquanto, muito pouco tem sido feito”, diz o diretor. A comissão de diretoria é sempre nomeada pelo Sindicato dos Artistas, e entre os antigos diretores da Casa está o diretor de teatro Dilmar Messias e o professor Dante Barone.



*Não lembro onde saiu isso, nem quando. Mas a casa ainda está lá.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Para agradar meninas indecisas

As intenções dos caras que eu conheço quando saem à noite são sempre as melhores possíveis: Transar e se drogar. Realmente não há coisa muito mais excitante a se fazer, mesmo se você é rico e pode brincar de tiro ao alvo com os móveis da casa. Ou com seus pais. Nesse caso, é melhor roleta-russa, porque daí se der merda é vontade divina. Tédio é pior do que ressaca. Por isso eu bebo, pra não virar psicopata. Certa vez, quando eu tinha lá por uns 11 anos, meu tio Jorge me falou algo que transformou o mundo em que eu vivia num lugar muito mais próspero e feliz de se habitar: “As gurias pensam em sexo tanto quanto os guris, só que elas não falam”. Uau. Era tudo que eu precisava ouvir àquela altura da vida. Eu nem sabia de que jeito se chegava a um orgasmo, mas como convencer uma menina a transar era a questão que mais importava na minha breve existência (as coisas não mudaram tanto). Muito menos me ocorria a idéia de que, em algumas situações, quem deveria ser convencido era eu. Me levar pra cama naquela época teria sido a maior barbada do mundo (realmente as coisas não mudaram tanto).

A vida parece algo muito divertido quando se tem 11 anos. Minhas únicas preocupações eram atingir o Nirvana (a banda, lógico), completar o álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro e fazer ligações a cobrar para as freiras do Mãe Admirável, colégio responsável pelos traumas mais marcantes na criança que eu era. A começar pelo nome ridículo: Mãe Admirável. Foi nessa época que aconteceu minha primeira desilusão amorosa. Eu era apaixonado pela Caroline, e durante uns dois anos ela me engambelou de uma forma que daria inveja a qualquer publicitário renomado. Famoso cu doce. Pra piorar, o irmão mais velho dela me batia e a guria dava risada. No outro ano, quando nos separaram de turma, eu me irritei. Decidi que não ia mais correr atrás e comecei a tratá-la com indiferença. Foi então que tudo mudou. Nos intervalos, ela me seguia com os olhos, dava sorrisinhos e vinha puxar assunto. “Piranha”, pensava eu, enquanto reparava que após todo esse tempo a menina agora desenvolvera os seios.

Sem querer, junto com meu tio ela acabou sendo de extrema utilidade na construção de um perfil rude e simplório das relações intersexuais, que me acompanharia por um bom tempo ainda: “Homens e mulheres podem ter os mesmos tipos de interesses, porém quando um percebe o interesse do outro, fode tudo”. Na minha cabeça, ambos gostavam de sofrer, de dificultar, vide meus pais. Lembro da melancolia que senti quando ouvi pela primeira vez “The long and winding road”, do Paul McCartney, e estava tudo ali, tudo que eu queria ouvir e dizer. Rezo pra ele todas as manhãs. Quando o Paul cantava “You left me standing here a long, long time ago. Don’t leeeave me waiting here, lead me to your doooooor”, por algum motivo meu peito ficava apertado e eu sabia que ainda haveria tristeza o bastante pra mim. A luta desde então tem sido me desvencilhar ao máximo de mim mesmo e de qualquer forma de sentimentalismo exacerbado. Tem sido duro. Devia ter virado padre. Pedofilia é muito menos desgastante, basta comprar um chocolate e correr pro abraço (literalmente).

Adoraria poder dizer o quanto hoje eu me sinto maduro e hábil com relação a essas bobagens todas, mas se parece muito com ontem. O pior é crescer e descobrir que tudo que se aprendeu sobre amor e felicidade estava terrivelmente fora de contexto. Você vira um Pac Man à procura de qualquer satisfação barata e a única forma de se sentir acolhido é num inferninho do Centro, dizendo pra puta: “Quero gozar na cara”. Nunca paguei por sexo, não sou normal. Tenho problemas comigo mesmo, admito, ouvi Sonic Youth por anos a fio e imagino em toda mulher a Kim Gordon (deve ser por culpa da microfonia). Loira, de saia, tocando baixo e fumando. Como diria um amigo meu, “mulher que fuma, dá”.

Teorias... Há uns dias atrás, conversando com meus amigos e ídolos Carlos Hahn e Zé Pedro, surgiu no ar a constatação unânime e óbvia de que qualquer teoria sexual que tente rotular as mulheres é pura coisa de imbecil. Babaquice de criança. Tirando aquela clássica que diz que não existe mulher feia e tal... Eu gosto daquelas garotas que fazem o cara dizer “puta que pariu, eu odeio essa guria”, mas não gosto das que são negligentes, que uma hora estão contigo e no outro dia já têm outro. Gosto das lésbicas e das "lésbicas" com aspas, que ainda estão se descobrindo. Das que bebem mas mesmo assim não ficam vulgares. Das que fazem da diferença um charme, das que lêem o que eu escrevo com carinho e então escrevem de volta, mas o meu coração também reserva espaço para as patricinhas que fazem chapinha e nunca lêem nada até o fim porque precisam assistir o filme novo da Sandra Bullock no 12. Na verdade, só existe um tipo de mulher que me agrada: A que me quer. As outras eu consigo rejeitar da mesma forma. Sei lá do que eu gosto... Gosto de banheiros públicos e suas várias funções. Dormir na casa dos outros também é muito bom. Dormir olhando as estrelas. Poucas sensações se comparam a de dormir sobre um casaco na rua, ouvindo Roberto Carlos na Caiçara enquanto tu se dá conta de que o dia vai nascer logo, e as pessoas estão seguindo seus rumos e murmuram na distância, mas nada disso importa ali, porque tudo vai ser teu mesmo quando acordar.

O grande foda é que sou meio sem iniciativa quando não alcoolizado, mas no fundo até que soa legal. Aliás, eu sou legal. Nunca durmo nos primeiros dez minutos após o sexo. Nem durante. Eu me viro muito bem sozinho, os outros é que são a merda. Kim Gordon e eu já bastaríamos para que existisse Caim e Abel, maçã, serpente e etc. E também a Juliette Binoche, pra apimentar a coisa. O físico Stephen Hawking só entrou na busca da “Teoria de Tudo”, onde tenta explicar todos os fenômenos do universo em todas as escalas, porque não podia comer ninguém. Ele não saberia dizer de fato o que é preciso para agradar meninas indecisas. Nem eu. Eu não entendo de teorias, então tento a prática. Os mecanismos que unem e separam as pessoas são mais complexos que o cosmos, porque o sexo é a mola propulsora de tudo. Só pra terminar, será que alguém tem figurinhas do Brasileirão de 95 pra trocar? Ainda me faltam as do Ricardo Rocha e do Tupãzinho pra completar o álbum.

sábado, 25 de agosto de 2007

Mais punk do que erudito



Cerveja vem, cerveja vai, e ao tentar descompassar o ritmo da conversa que já beira ao incompreensível àquela altura da noite, meu amigo Thiago comenta, enquanto larga o isqueiro sobre a mesa: “Aqui do lado de casa tem ensaio de uma banda todo sábado, no Julinho”. A bocejante resposta dada por meu corpo ao tomar conhecimento de mais um grupo de rock que surge no mundo acaba camuflada pela perplexidade de ouvir que o colégio Júlio de Castilhos, famoso por seu passado político e importância histórico-cultural, hoje cede espaço à música eletrificada. “Não, mas é banda de colégio. Banda marcial”, retruca ele, voltando-se ao copo que esquenta. “Bom, acho que já tenho uma pauta pra aula de quarta”, penso eu.

Enquanto jovens de diferentes classes sociais se aprofundam a cada dia mais nas vertentes musicais popularizadas a partir da segunda metade do século XX, como o rock n' roll e seus agregados, senhores de cabelos rasos e experiência avançada vão abandonando a cena de mãos dadas a outros ritmos apagados, como a música clássica, o jazz e o blues. Creio que no meio disso estão as bandas marciais, transitando entre o popular e o erudito, a música considerada comercial e a refinada. Com seus instrumentos de percussão e sopro, de leitura mais sofisticada. Com maestro e formação semelhante às orquestras. Os uniformes dos integrantes e seus desfiles ritmados fazem parte do ritual, ou da alma das bandas marciais, muito comuns até a década de 70, assim como o whisky e o cigarro compõem o cenário de qualquer clube de jazz, muito comuns até se descobrir que é possível ser uma estrela da música conhecendo apenas 3 acordes. E o Julinho, onde entra nisso? É o que eu pretendia descobrir e, quem sabe, fazer parte.

Fazer parte da banda, é lógico. Se você descobrisse que um monte de gente ensaia e se diverte há poucos metros de distância da sua casa, não ia querer se juntar a eles? Saber tocar é o de menos, afinal grandes músicos começaram assim, influenciados pelas pessoas mais próximas. Além disso, minha intenção nunca foi fazer da música um ganha-pão, ainda mais no Brasil, e por esse motivo não me constrange dizer que todas as bandas de que eu participei acabaram no anonimato (nem tanto assim, mas soará mais triste a você, leitor). Agora eu tinha um novo instrumento a que me dedicar, não mais a guitarra e o contrabaixo elétricos, tão surrados mundo afora: O trompete. Por muitos anos, ele conduziu em mim uma força motriz capaz de invejar as mais belas garotas na luta por atenção. Até tentei tocá-lo, uma vez, mas não consegui produzir qualquer som agradável. Grande coisa. É impossível, para qualquer admirador convincente de música, não criar raízes sólidas e profundas de afeto com o famoso trompetista norte-americano Chet Baker ao desabotoar os primeiros botões de sua obra. Antes disso, porém, talvez se materialize a imagem eternizada do músico em decadência e que abusava de entorpecentes, mas isso eu encontraria em qualquer esquina, não era minha principal intenção.

Convencionar imagens e realidades tem muito a ver também com a função social da imprensa e dos veículos de comunicação em geral, e a imagem que se criou a respeito do Julinho (muito graças a ocorridos reais, diga-se) é a de que a bagunça e a desorganização imperam lá dentro e nas redondezas, como de fato acontece com todo o ensino público gaúcho. Num sábado à tarde, porém, quem impera na entrada do prédio localizado na Avenida João Pessoa são o silêncio e a tranqüilidade. À minha frente surge a presença de um senhor de cabelos brancos, por quem eu seria muito bem conduzido durante aquela visita. Conversando com o ex-aluno e ex-integrante da banda marcial do colégio, de 1959 a 1967, Renan Lisboa, épocas completamente distantes e divergentes pareciam estar se unindo. De 1972 até setembro do ano passado, quando ele e outros ex-integrantes entraram no museu do Julinho para recuperar instrumentos abandonados e retomar as atividades musicais ali, a tradicional Banda Marcial Juliana era apenas parte de uma história. Graças à vontade desses senhores saudosos, ela voltou.

O dinheiro é deles, a idéia e muito da dedicação também, mas as coisas funcionam de modo diferente agora dentro da banda. Com novos integrantes, novos instrumentos, com novas características, enfim, e isso acaba gerando um conflito de gerações. Os mais velhos querem o som da banda antiga, talvez para reviver aquela sensação do passado, mas isso é impossível. Até porque os mais novos querem tocar do jeito deles, afinal é a época deles. Eu não fazia idéia, até então, do que esperar de uma banda marcial, ainda mais uma que está recomeçando após tantos anos, num colégio público com fama de perigoso. A situação toda me lembrava aqueles filmes sobre escolas americanas do Brooklyn, em que o diretor é perseguido pelos alunos e no final tudo acaba numa boa. Acompanhado de Renan, um possível diretor perseguido, parte do passado e do presente do Julinho, de longe eu ouço a batida da bateria, e vou me animando, chegando mais perto, com a máquina fotográfica em punho, chegando perto, imaginando no barulho que se aproxima a claridade do trompete que eu almejo tocar, e torcendo para que, como nos filmes, as coisas terminem numa boa.

O que mais impressiona, nesse novo contexto em que uma parte dos alunos do Julinho se encaixam, são as dificuldades encontradas ali dentro para que a banda possa seguir em marcha. Cada integrante recebe vale-transporte para poder comparecer aos ensaios, além dos instrumentos e aulas. A maioria deles vêm de longe, alguns nem moram em Porto Alegre, e o colégio não tem renda suficiente pra bancar essas despesas. Quem arca com tudo são os ex-integrantes, que formam o conselho diretor e contam com algumas ajudas de fora. Situação ímpar se comparada com outras bandas marciais que atuam no nosso Estado, como as bandas do Colégio La Salle São João e a do Colégio Militar, ambas da capital, que contam com uma estrutura bem mais favorável. Só a AGB (Associação Gaúcha de Bandas) conta com 73 cadastradas, participando de festivais, competições, workshops. Parece muito, porém é um número bem menor do que já foi há anos atrás. Estou às costas de Renan, timidamente localizando-me dentro das instalações do Julinho. Atravessamos o pátio, chegamos na entrada do teatro, que vai surgindo vazio, vazio, até que explode. A banda está ali, e pelas próximas 2 horas eu nada mais consigo fazer além de fotografar e entrar naquele mundo.

O lugar é enorme, o palco está escuro, e ali embaixo, entre cadeiras vazias e alguns olhares atentos (ou enciumados) de conselheiros, têm aproximadamente uns 70 caras tocando. Muitos usam boné, roupas largas e tênis importados, lembrando mais a composição de um grupo de hip-hop. Outros são mais arrumados, porém a maioria deles cruza uma faixa-etária próxima da minha: 20 e poucos anos. O som da banda toma conta do ambiente, como um estádio de futebol vazio presenciando uma final de campeonato. “Como é que eu não descobri isso antes, como é que as pessoas não sabem que isso acontece todo sábado, aqui, no Julinho?’. Provavelmente em outra situação, num sábado comum, eu estaria na rua tentando achar algo divertido, ou em casa, talvez ouvindo os Beach Boys, os Stone Roses. Essa é a minha realidade, como a da maioria que eu conheço: Música pop, e não os ensaios de uma banda marcial, “bandinha’, como as pessoas chamam. Azar o nosso. Isso que se passa no Julinho é muito mais legal do que qualquer banda nova que apareça. Antigamente considerado músico do demônio, ingrediente principal de uma tríade que une putaria e entorpecentes, numa imagem dionísica ao extremo, entre outras bobagens, o roqueiro moderno toma toddynho antes de ir pra academia e ganha uma guitarra elétrica a cada dois aniversários. Ser pai de um desses indivíduos é o sonho de qualquer ser humano com menos de 50 anos. Não tem nada de inovador e transgressor nisso. Com essa banda é diferente. A coisa se inverteu, a história é outra.

Assim que o ensaio termina, ouço algumas reclamações dos integrantes ao maestro, que assume na minha mente a figura do diretor de escola do Brooklyn, porém não perseguido, mas sim companheiro dos alunos. Eles estão irritados com alguns conselheiros, que insistem na idéia de que a banda soe como era antes. “Eles querem que a gente toque como nos anos 60”, fala um deles em tom de deboche, enquanto a sala vem abaixo com as risadas. O maestro também ri, mas coloca claramente o problema: “São vocês que tocam, mas sem eles não tem banda, nós temos que conciliar os dois lados”. E a história não me soa tão passível assim de um final feliz. O medo de que os dois lados não consigam se entender me pega em cheio. Para os outros, porém, tudo isso parece ser apenas passageiro, diante de sua empolgação e da realidade que transformam com a música. Saindo dali, integrantes do presente e do passado se encontram num boteco, com divergências ou não, e fazem música na rua. Alguns trompetes, trombones e percussão sobre a mesa junto da cerveja. Essa é a imagem que fica do Julinho nesse sábado. É punk, é transgressor, vai além da simplicidade a que se está acostumado nos pequenos grandes sucessos atuais. Se fosse subterrâneo talvez não fosse tão underground quanto de fato é, escondido na cara dura do que não é tão noticiado. Azar o nosso.

domingo, 17 de junho de 2007

Um crime dissonante*


No dia 3 de fevereiro de 1984, aos 36 anos de idade, o cantor e compositor porto-alegrense Carlinhos Hartlieb fora encontrado morto dentro de sua própria casa, na Praia do Rosa, em Santa Catarina, localidade até então habitada por pescadores e pouco conhecida por pessoas que não fossem da região. Nu e tendo uma corda presa ao teto amarrada em seu pescoço, o corpo do cantor já estava em estado de decomposição, designando que desse jeito permanecia há, possivelmente, quatro ou cinco dias. Sem aguardar o resultado da necropsia e outras evidências, o delegado de polícia de Imbituba responsável pelas investigações, Haroldo Amorim Vicente, dá por encerrado o caso e define a causa oficial da morte: Suicídio. Assim os jornais Zero Hora e Correio do Povo do dia 5 de fevereiro relatavam para os gaúchos a morte de Carlinhos em suas edições com foto e matéria de capa.


Além de músico, Carlinhos era um agitador cultural incansável. Organizou os festivais “Rodas de som”, que aconteciam no Teatro de Arena, em Porto Alegre, ajudando a lançar muitos artistas iniciantes na década de 70, como Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, Musical Saracura, entre outros. Se apresentou ao lado da famosa banda de rock Liverpool, tendo composto o maior sucesso do grupo, “Por favor, sucesso”, e participou do histórico disco “Paralelo 30”, que reunia a nata de um movimento recém criado no Estado: A MPG. Seu único trabalho próprio oficialmente lançado chama-se “Risco no céu”, e só chegou às lojas postumamente.


Hoje, vinte e três anos depois do acontecido, o que se sabe a respeito da morte de Carlinhos Hartlieb vai muito além daquilo que foi dito pela imprensa na ocasião. Falar em suicídio é quase o mesmo que tapar os olhos e ouvidos para tudo que já se desvendou acerca do assunto, e isso é admitido inclusive por profissionais que estavam ligados à cobertura do caso na época. "Ele foi assassinado", relatou recentemente o jornalista Wanderley Soares, ex-editor de polícia da Zero Hora. Dedé Ferlauto, repórter policial do jornal na época e amigo do cantor, fez questão de cobrir o caso pessoalmente. Foram publicadas três matérias. Nelas, levantaram-se algumas hipóteses além do suicídio. Conforme publicado na edição do dia 6 de fevereiro, tratando do sepultamento do músico em Porto Alegre, Carlinhos possivelmente não teria se matado: “Esta violência (o suicídio) não foi dele. Isso não foi bem contado”, afirmou uma das sessenta pessoas que estavam presentes no velório.


Juarez Fonseca, também jornalista da ZH em 1984, publicou um texto na contracapa do caderno “ZH Guia” prestando uma homenagem póstuma ao amigo. O conteúdo da coluna ainda era baseado na versão extra-oficial da polícia, apesar do próprio Juarez colocar em dúvida a natureza auto-destrutiva de Carlinhos: “Nunca o vi deprimido. E foram dezessete anos de convivência”. Em entrevista recente, Juarez levanta outra hipótese: “Não podemos nos esquecer que estávamos em plena ditadura militar e que Carlinhos poderia ser considerado um subversivo. Lembro que naquele tempo a polícia andava freqüentando constantemente as praias de Santa Catarina”.


No dia 7 de fevereiro, a Zero Hora publicou a última reportagem tentando dar uma explicação plausível ao que de fato ocorreu na Praia do Rosa. Após reafirmar que Carlinhos teria sido morto por asfixia decorrente de estrangulamento, conforme informou o delegado encarregado da investigação, o jornal fecha com uma informação que poderia mudar os rumos do que se sabia até então: “O resultado do auto da necropsia realizado no corpo do músico só será conhecido oficialmente nessa quarta-feira, dia 08/02”. Após isso, nada mais foi publicado a respeito. Procurados para a realização dessa reportagem, Wanderley Soares e Dedé Ferlauto não quiseram falar sobre o caso.


No livro “Carlinhos Hartlieb”, de Jimi Neto e Rossyr Berny, consta o resultado oficial do exame de corpo de delito: O corpo foi encontrado sem onze dentes e não apresentava fratura na coluna cervical – o que exclui a hipótese de estrangulamento. O próprio autor, em entrevista, compara a cena da morte a outro crime notório, ocorrido anos antes: “O Carlinhos estava com os joelhos encostados no chão e sem o pescoço quebrado, exatamente igual ao Wladimir Herzog. Ou seja, suicídio não foi mesmo”. Um dos depoimentos ouvidos conta que o suposto assassino de Carlinhos teria algum grau de parentesco com o delegado responsável pela investigação, o que fez com que tudo se resolvesse da maneira mais rápida e discreta possível. Como disse o cantor gaúcho Mutuca, primo-irmão do músico, “Ele foi morto e não temos prova de quem foi, só conjecturas. Uma linha de raciocínio clara foi estabelecida, apontando culpados, mas não podemos acusá-los”.


Muito já foi dito e pouco explicado. Além das possibilidades já levantadas, se cogita que a morte de Carlinhos também possa estar ligada a traficantes de drogas e a um marido enciumado. Rossyr Berny nos dá algumas pistas: “Nunca mais se mexeu no assunto porque ninguém quer arriscar o próprio pelego. Tem gente grande envolvida nisso, então o que nos resta é levantar hipóteses”.



*Texto feito em parceria com Térence Veras, para a cadeira de Projeto Experimental em Jornal, da Famecos-PUCRS.